Diga Bom Dia com Poesia! - sexta-feira, 20 de março

Pré-escolar

1.º ciclo

Os ratos 

Viviam sempre contentes,
No seu buraco metidos,
Quatro ratinhos valentes,
Quatro ratos destemidos.

Despertaram certo dia
Com vontade de comer,
E logo à mercearia
Dirigiram-se a correr.

O primeiro, o mais ladino,
A uma salsicha saltou,
E um bocado pequenino
Dessa salsicha papou.

Eu choro do rato a sina,
Que a tal salsicha matou,
Por causa da anilina
Com que alguém a colorou.

O segundo, coitadinho,
À farinha se deitou,
E comeu um bocadinho,
Um bocadinho bastou.

Após comer a farinha
Teve ele a mesma sorte,
Pois o alúmen que ela tinha
Conduziu-o assim à morte.

O terceiro, pra seu mal,
Gotas de leite sorveu,
Mas o leite tinha cal;
Foi por isto que ele morreu.

O quarto, desmiolado,
A negra morte buscou,
E julgou tê-la encontrado,
Quando o veneno encontrou.

E sorvendo sublimado,
Enquanto este gastava,
(Agora invejo-lhe o fado),
O feliz rato engordava.

É só cá neste terreno,
Que caso assim é passado —
Até o próprio veneno
Já fora falsificado!

Fernando Pessoa


2.º ciclo

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem fica no chão não fica no chão.
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guarda dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não guarda o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolha o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

                       

Cecília Meireles

3.º ciclo

Queres viajar, Maria Flor?

Viajar é correr mundo,

voar mais alto que os pássaros

ou pisar o chão da Terra

ou as ondas do Mar Alto…

É ver bichos

de muitas cores e feitios,

montanhas,

rios,

e ribeiros

e pessoas

e lugares…

Conhecer e descobrir,

inventar e duvidar,

sabendo cada vez mais,

sem nunca pensar que basta

o mundo que se conhece.

E alargá-lo com amor

dentro de nós e dos outros.

 

Alves Redol, "Uma Flor Chamada Maria"

Secundário

Todas as cartas de amor são ridículas

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu

tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

Todas as cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca

escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quisera que no tempo em que escrevi

Sem dar por isso

Cartas de amor que eram

Ridículas.

A verdade é que hoje

São as minhas recordações

Das cartas de amor

Que são

Ridículas.

(Todas as palavras proparoxítonas,

Como os sentimentos proparoxítonos,

São naturalmente

Ridículas.)

 

                                    Fernando Pessoa

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Poesia no e do CAA

 


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Março Mês da Leitura- Não Vales Nada

 

    Ontem, 18 de Março foi dia de receber a autora Ana Cláudia Dâmaso, na Biblioteca Escolar da Escola Básica de Porto Alto.


    A atividade foi destinada aos alunos de 9.º ano, e realizou-se no âmbito do Mês da Leitura.

    Gostámos muito de receber a autora e das fantásticas partilhas entre autora e alunos.




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Diga Bom Dia com Poesia - quinta-feira, 19 de março

 


Pré-escolar


1.º ciclo


Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É uma verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo útil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

 

Alexandre O’Neill

 

2.º ciclo


Limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não para de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

Álvaro Magalhães


3.º ciclo


A Um Livro

 

No silêncio de cinzas do meu Ser

Agita-se uma sombra de cipreste,

Sombra roubada ao livro que ando a ler,

A esse livro de mágoas que me deste!

 

Estranho livro aquele que escreveste,

Artista da saudade e do sofrer!

Estranho livro aquele em que puseste

Tudo o que eu sinto, sem poder dizer.

 

Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma.

O livro que me deste é meu e salma

As orações que choro e rio e canto!…

 

Poeta igual a mim, ai quem me dera

Dizer o que tu dizes!...Quem soubera

Velar a minha Dor desse teu manto!...

 

Florbela EspancaLivro de Mágoas


Secundário

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen


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Diga Bom Dia com Poesia! - quarta-feira, 18 de março de 2026


 

Pré-escolar

1.º ciclo

Estações

 

Aprendi os cheiros
do alecrim e da hera
e ao azul do céu
chamei primavera.

 

Encontrei um fruto
na concha da mão
e à sede da água
dei um nome: verão.

 

Descobri o sol
com olhos de sono,
à tristeza das folhas
dei o nome de outono.

 

Aprendi os modos
do bicho mais terno:
um cão de peluche
com o frio de inverno.

 

Juntei as estações
com pés de magia
e à soma das quatro
chamei poesia.

 

José Jorge Letria

2.º ciclo

Faz de conta

Faz de conta que sou abelha.
– Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco, pássaro voando
e voando sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta.

Eugénio de Andrade

3.º ciclo

O Portugal Futuro

O Portugal  futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o Portugal futuro


Ruy Belo, Homem de Palavra(s)  

 

secundário

Ajuda

Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!


                       Miguel Torga, in 'Diário (1945)'


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Visita tão simpática!

 




A simpática e talentosa Ana Cláudia Dâmaso visitou-nos e conversou com os alunos de 9.º e de 12.º ano sobre o seu mais recente trabalho, Não vales nada.

Também pela pertinência da temática, esta autora é sempre bem-vinda e os nossos jovens têm oportunidade de refletir sobre o Bullying e a violência gratuita nas escolas. 

Foi um gosto, Ana Cláudia Dâmaso!


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Diga Bom Dia com Poesia! - terça- feira, 17 de março

 


Pré-escolar




1.º ciclo 

Joaninha

A joaninha bonita
Que mora a meio do caminho
Da rua das violetas
Tem um vestido de chita
Todo ele encarnadinho
E cheio de bolinhas pretas.

E quando a gente lhe diz:
‹‹Joaninha voa, voa,
Não me digas que tens medo,
Se voas serás feliz
Que o teu pai está em Lisboa
Foi lá comprar um brinquedo…››

A joaninha responde:
‹‹Se és amigo verdadeiro
Não me digas voa, voa,
– voar sim, mas para onde? –
o meu pai não tem dinheiro
para ter ido a Lisboa…››

E a joaninha bonita
Lá se fica no caminho
Da rua das violetas
Com um vestido de chita
Todo ele encarnadinho
E cheio de bolinhas pretas…

Sidónio Muralha

2.º ciclo

Liberdade

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

 

                                               Sophia de Mello Breyner Andersen


3.º ciclo

XXI 

Se eu pudesse trincar a terra toda  
E sentir-lhe um paladar,

E se a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...  
Mas eu nem sempre quero ser feliz.  
É preciso ser de vez em quando infeliz  
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro, Poesia, “O guardador de rebanhos”


Secundário 

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...



Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


                     Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


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Diga Bom Dia com Poesia! - sexta-feira, 20 de março

Pré-escolar 1.º ciclo Os ratos   Viviam sempre contentes, No seu buraco metidos, Quatro ratinhos valentes, Quatro ratos destemidos. D...

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