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Diga Bom Dia com Poesia - quinta-feira, 19 de março

 


Pré-escolar


1.º ciclo


Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É uma verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo útil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

 

Alexandre O’Neill

 

2.º ciclo


Limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não para de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papeis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,
leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.

Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes a mão para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

Álvaro Magalhães


3.º ciclo


A Um Livro

 

No silêncio de cinzas do meu Ser

Agita-se uma sombra de cipreste,

Sombra roubada ao livro que ando a ler,

A esse livro de mágoas que me deste!

 

Estranho livro aquele que escreveste,

Artista da saudade e do sofrer!

Estranho livro aquele em que puseste

Tudo o que eu sinto, sem poder dizer.

 

Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma.

O livro que me deste é meu e salma

As orações que choro e rio e canto!…

 

Poeta igual a mim, ai quem me dera

Dizer o que tu dizes!...Quem soubera

Velar a minha Dor desse teu manto!...

 

Florbela EspancaLivro de Mágoas


Secundário

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen


(visite a nossa biblioteca digital em https://bibliotecadigitalaesc.webnode.pt/)


Diga Bom Dia com Poesia! - quarta-feira, 18 de março de 2026


 

Pré-escolar

1.º ciclo

Estações

 

Aprendi os cheiros
do alecrim e da hera
e ao azul do céu
chamei primavera.

 

Encontrei um fruto
na concha da mão
e à sede da água
dei um nome: verão.

 

Descobri o sol
com olhos de sono,
à tristeza das folhas
dei o nome de outono.

 

Aprendi os modos
do bicho mais terno:
um cão de peluche
com o frio de inverno.

 

Juntei as estações
com pés de magia
e à soma das quatro
chamei poesia.

 

José Jorge Letria

2.º ciclo

Faz de conta

Faz de conta que sou abelha.
– Eu serei a flor mais bela.

– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.

– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.

– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco, pássaro voando
e voando sobre ti vezes sem conta.

– Faz de conta, faz de conta.

Eugénio de Andrade

3.º ciclo

O Portugal Futuro

O Portugal  futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro

edificar sobre ele o Portugal futuro


Ruy Belo, Homem de Palavra(s)  

 

secundário

Ajuda

Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!


                       Miguel Torga, in 'Diário (1945)'


(visite a nossa biblioteca digital em https://bibliotecadigitalaesc.webnode.pt/)



Diga Bom Dia com Poesia - sexta-feira

 


Cá estão as nossas poesias de sexta-feira!

1.º ciclo

AS PALAVRAS MAL CASADAS

 

 


Palavras que se dão mal,
palavras que são zangadas,
são palavras mal casadas,
são palavras mal casadas.
 
Sabiam que a palavra Bolo
casou com a palavra Bola?
Parecia que era bem jogado,
mas não deu resultado.
 
Ele sempre na cozinha
a ser bolo de cereja;
Ela a ver televisão
e sempre a beber cerveja.
 
Palavras que se dão mal (…)
 
Só falavam quando não
dava bola na televisão.
E se o Benfica perdia…
sossego é que não havia.
 
 
E que mais aconteceu,
perguntam vocês agora?
A palavra Bolo cansou-se
daquela vida e foi embora.
 
Palavras que se dão mal (…)
 
Casou c’uma bola de Berlim
que viu na montra do “Doção”
não gostava de futebol,
nem de ver televisão.
 
E a palavra Bola saiu
de casa, num dia de sol.
Anda por aí a rolar
num campo de futebol.
 
Palavras que se dão mal (…)


                          Álvaro Magalhães


2.º ciclo

Perdidamente

 

 

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca


3.º ciclo

Garota de Ipanema

 

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
é ela menina, que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar
 
Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
é a coisa mais linda que já vi passar
 
Ai! Como estou tão sozinho
Ai! Como tudo é tão triste
Ai! A beleza que existe
A beleza que não é só minha
E também passa sozinha
 
Ai! Se ela soubesse que quando ela passa
O mundo interinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor
 
Só por causa do amor…

 

                                    Vinicius de Moraes


secundário

 

Os erros

A confusão a fraude os erros cometidos

A transparência perdida - o grito

Que não conseguiu atravessar o opaco

O limiar e o linear perdidos

 

Deverá tudo passar a ser passado

Como projeto falhado e abandonado

Como papel que se atira ao cesto

Como abismo fracasso não esperança

Ou poderemos enfrentar e superar

Recomeçar a partir da página em branco

Como escrita de poema obstinado?

                                                                               Sophia de Mello Breyner Andresen



 


Diga Bom Dia com Poesia - quinta-feira


 Cá estão as nossas poesias de quinta-feira1

pré-escolar/1.º ciclo

AH, O AMOR!

Se chegaste ao lugar desconhecido,
e seja isso onde for,
estás perdido e não estás perdido:
encontrou-te o Amor.
 
Ah, o Amor. Que confusão!
É como uma casa arrumada
por um desarrumador,
ou um piano afinado
por um desafinador.
 
O Amor é assim É assim o amor.
É assim o Amor. O Amor é assim.
 
Não sabe as horas que são.
Por isso é acertado.
É seguro, é perigoso.
E não tem mistério nenhum.
Por isso é misterioso.
 
O Amor é uma aventura
que até pode dar pr’ó torto,
mas se não te acontecer
estás tão vivo como morto.
 
O Amor é assim. É assim o Amor.(…)

 

 Álvaro Magalhães

2.º ciclo

Lágrima de preta

 


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.


                            António Gedeão

3.º ciclo

Poetas

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.
 
Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!
 
Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.
 
E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

                                                           Florbela Espanca


secundário

Soneto da Fidelidade

 

De tudo ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em seu louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama.

 

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Vinícius de Moraes

 

Diga Bom Dia com Poesia - quarta-feira

 

Estes são os nosso poemas de quarta-feira 

Pré-escolar/1.º ciclo

A SOMBRA

Não tem cara, a tua sombra.
Será feia ou bela?
E é ela a tua sombra
ou és a pessoa dela?
 
Quem é esse, quem é essa
que vai sempre ao teu lado,
caminha se tu caminhas
e para se ficas parado?
 
Onde tu vais, ela vai.
O que tu fazes, ela faz.
Não sabe fazer mais nada.
E é rapariga ou rapaz?
 
Não tem cara, a tua sombra. (…)
Tu e a tua sombra
nunca se irão despedir,
nem ela pode apanhar-te,
nem tu podes fugir
 
Quem me dera ser essa sombra,
sempre ao teu lado, até ao fim,
a repetir o que fazes,
gesto por gesto, tintim por tintim.
 
Não tem cara, a tua sombra.(…)

 

Álvaro Magalhães

2.º ciclo

Ter um amigo é maravilhoso

Ter um amigo
é maravilhoso.

Ser amigo de alguém
ainda melhor;
é como recordar
e sentir o Sol a brilhar.

Um amigo é alguém
com quem se está bem.

Mas um amigo
é muito mais do que isso!
É alguém que pensa em ti
quando não estás aqui.

Nunca se está realmente só
quando se tem um amigo.

Amigo é uma palavra bonita.

É quase

a melhor palavra!

Sophia de Mello Breyner Andresen


 3.º ciclo

Andar?! Não me custa nada!

 
Andar?! Não me custa nada!...
 
Mas estes passos que dou
 
Vão alongando uma estrada
 
Que nem sequer começou.
 
Andar na noite?!Que importa?...
 
Não tenho medo da noite
 
Nem medo de me cansar:
 
Mas na estrada em que vou,
 
Passo sempre à mesma porta...
 
E começo a acreditar
 
No mau feitiço da estrada:
 
Que se ela não começou
 
Também não foi acabada!
 
Só sei que, neste destino,
 
Vou atrás do que não sei...
 
E já me sinto cansada
 
Dos passos que nunca dei.

 

                                                           Natália Correia, de Rio de Nuvens (1947)


secundário


A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas

vão ser colocados em lugares mais úteis.

Por exemplo, observadores de pássaros

(enquanto os pássaros não

acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao

entrar numa repartição pública.

Um senhor míope atendia devagar

ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum

poeta por este senhor?» E a pergunta

afligiu-me tanto por dentro e por

fora da cabeça que tive que voltar a ler

toda a poesia desde o princípio do mundo.

Uma pergunta numa cabeça.

— Como uma coroa de espinhos:

estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina 


Diga Bom dia com Poesia - terça ferira




Estes são os nosso poemas de terça-feira 

Pré-escolar/1.º ciclo

CENTOPEIA


Centopeia, centopeia,
Não é linda nem é feia.
 
Era uma vez uma centopeia
Não era linda nem feia.
Não saía sem calçar
Um sapato e uma meia
 
Mas são cem as patas dela
ou já não era centopeia;
e só pr’apertar cordões
precisa de uma hora e meia
 
Centopeia, centopeia (…)
 
Convidei-a para lanchar
mais do que uma vez
Chegava a sempre atrasada
se queria chegar calçada.
 
Às vezes, só tinha tempo
De calçar cinquenta sapatos
cada qual com sua meia.
Mas era só uma cinquentopeia.
 
Centopeia, centopeia (…)
 
Diz-me lá tu quantas patas
uma centopeia tem?
Tem dez, trinta, quarenta,
sessenta, noventa, cem?
 
E se tem cem patas,
quantos sapatos tem?
Tem cem sapatos
cem pares de meias também.
 
Centopeia, centopeia (…)


 

 

Poema de Álvaro Magalhães

2.º ciclo

Diz o Avô

Tens cabelos brancos.
Mas porquê, avô?
Caiu muita neve
na estrada onde vou.
 
Tens rugas na face.
Mas porquê, avô?
Bateu muito sol
na estrada onde vou.
 
Tens olhos baços.
Mas porquê, avô?
Pousou nevoeiro
na estrada onde vou.
 
Tens calos nas mãos.
Mas porquê, avô?
Parti muita pedra
na estrada onde vou.
 
Tens coração grande.
Mas porquê, avô?
Nele mora a gente
que por mim passou.

 

Luísa Ducla Soares 

3.º ciclo

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

 

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”1

Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”

Ó vendilhões do templo2
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem

 

                            Sophia de Mello Breyner Andresen,

secundário

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa,

in "Viagem Através de uma Nebulosa"

 

A D. Marília e a magia do fantocheiro da biblioteca da Escola Básica n.º 2 de Porto Alto

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