A oliveira da democracia: o Mediterrâneo, a sustentabilidade e os direitos constitucionais de todos nós

Os sábios da Antiguidade ensinavam que os confins do Mediterrâneo se situavam onde a oliveira se detém. 

Predrag Matvejević, Breviário Mediterrânico, 1987.











Os professores de História e Geografia de Portugal, Marcos Carvalho, de Ciências Naturais, Dina Monteiro, Maria do Carmo Figueiredo, e de Prática Artística, Luís Pinheiro, organizaram uma atividade interdisciplinar no âmbito das suas disciplinas, do Projeto Eco-Escolas e da Biblioteca Escolar. 

Chamaram-lhe "oliveiras da democracia" e realizou-se hoje, dia 1 de junho, na Escola Básica de Porto Alto, com os alunos do 5.º G, do 6.º H e, ainda, com o Nelson, do 5.º A.

No tempo do "era uma vez", uma comunidade de homens e mulheres fundou uma nova cidade. Procuraram um deus protetor e dois deuses disputaram esse lugar. No sítio mais alto e sagrado da cidade - a acrópole -, Posídon, deus do mar, golpeou a rocha e desta nasceu uma corrente imensa de água salgada. Na sua vez, Atena, deusa da sabedoria, tocou a terra e dela nasceu uma oliveira. 

Perguntámos aos nossos alunos que oferta escolheriam e eles responderam a oliveira. Explicaram que a fonte de água salgada poderia ser espetacular, mas a oliveira dá sombra e alimento. Foi justamente este o pensamento dos fundadores da nova cidade e escolheram o presente da deusa Atena. A cidade passou a chamar-se Atenas e é hoje a capital da Grécia.

Do tempo do era uma vez, passámos para o tempo da história, da cronologia e dos acontecimentos que formam quem somos. A oliveira, uma das poucas espécies autóctones do espaço do Mediterrâneo, atesta-nos o sábio Orlando Ribeiro, faz parte da paisagem portuguesa há séculos. Deu - e dá - sombra, alimento e madeira.

Como todas as coisas vivas neste planeta, as oliveiras não são uma coisa só. Têm diversas variedades. A variedade que os professores escolheram plantar com os seus alunos é a Galega, uma das variedades mais antigas de Portugal e que pode ser encontrada na nossa região - o Ribatejo.

Ao plantar uma árvore que marca a nossa paisagem há milénios, estamos a praticar um valor fundamental na vida de todos nós: o da sustentabilidade. Define-se pela necessidade de extrairmos recursos do meio para a nossa sobrevivência sem colocar em risco as suas reservas para aqueles que virão depois de nós - os nossos filhos, netos, bisnetos, etc. Assim, plantar uma oliveira também não deixa de ser um contributo para a concretização do ODS 12 - Garantir Padrões de Consumo e de Produção sustentáveis.

Ao mesmo tempo, a oliveira e o azeite não deixam de remeter para um dos maiores patrimónios partilhado pelos povos da bacia do Mediterrâneo: a dieta. Sinónimo de saúde e de equilíbrio, o padrão de consumo mediterrânico valoriza o consumo de produtos de produção local, técnicas de preparação como o cozido, o refogado e o grelhado e, ainda, algo que é fundamental na vida de todos nós: a partilha das refeições.

A oliveira também é símbolo de paz. O estudo da disciplina de História deve servir dois fins: compreendermos que os acontecimentos do passado definem quem somos e formarmos um juízo para que não voltemos a repetir os erros desse mesmo passado. Como nos ensinou Lídia Jorge, temos de saber determinar a causa certa.

Saber determinar a causa certa é escolher os valores da democracia e da cidadania consagrados na Constituição da República de 1976. Porquê? Porque garantem igualdade e respeito pela diferença - garantem a dignidade de todos.

Pusemos as mãos na terra para estas oliveiras crescerem fazendo votos que os nossos direitos constitucionais acompanhem o seu crescimento. Que ambos nos deem sombra em todos os momentos da nossa vida. Porque é precisamente o tempo da nossa vida, o aqui e agora - não o tempo do era vez - que nos toca. E é precisamente este tempo que Sophia de Mello Breyner Andresen referia quando escreveu o verso do seu mítico poema: "e livres habitamos a substância do tempo."

(visite a nossa biblioteca digital em https://bibliotecadigitalaesc.webnode.pt/)

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