Estações
Aprendi os cheiros
do alecrim e da hera
e ao azul do céu
chamei primavera.
Encontrei um fruto
na concha da mão
e à sede da água
dei um nome: verão.
Descobri o sol
com olhos de sono,
à tristeza das folhas
dei o nome de outono.
Aprendi os modos
do bicho mais terno:
um cão de peluche
com o frio de inverno.
Juntei as estações
com pés de magia
e à soma das quatro
chamei poesia.
José Jorge Letria
Faz de conta
Faz de conta que sou abelha.
– Eu serei a flor mais bela.
– Faz de conta que sou cardo.
– Eu serei somente orvalho.
– Faz de conta que sou potro.
– Eu serei sombra em agosto.
– Faz de conta que sou choupo.
– Eu serei pássaro louco, pássaro voando
e voando sobre ti vezes sem conta.
– Faz de conta, faz de conta.
Eugénio de Andrade
O Portugal
Futuro
O Portugal futuro é
um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar
sobre ele o Portugal futuro
Ruy Belo, Homem de
Palavra(s)
Ajuda
Porque o amor é simples,
Vale a pena colhê-lo.
Nasce em qualquer degredo,
Cria-se em qualquer chão.
Anda, não tenhas medo!
Não deixes sem amor o coração!
Miguel Torga,
in 'Diário (1945)'


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