Os ratos
Viviam sempre contentes,
No seu buraco metidos,
Quatro ratinhos valentes,
Quatro ratos destemidos.
Despertaram certo dia
Com vontade de comer,
E logo à mercearia
Dirigiram-se a correr.
O primeiro, o mais ladino,
A uma salsicha saltou,
E um bocado pequenino
Dessa salsicha papou.
Eu choro do rato a sina,
Que a tal salsicha matou,
Por causa da anilina
Com que alguém a colorou.
O segundo, coitadinho,
À farinha se deitou,
E comeu um bocadinho,
Um bocadinho bastou.
Após comer a farinha
Teve ele a mesma sorte,
Pois o alúmen que ela tinha
Conduziu-o assim à morte.
O terceiro, pra seu mal,
Gotas de leite sorveu,
Mas o leite tinha cal;
Foi por isto que ele morreu.
O quarto, desmiolado,
A negra morte buscou,
E julgou tê-la encontrado,
Quando o veneno encontrou.
E sorvendo sublimado,
Enquanto este gastava,
(Agora invejo-lhe o fado),
O feliz rato engordava.
É só cá neste terreno,
Que caso assim é passado —
Até o próprio veneno
Já fora falsificado!
Fernando Pessoa
2.º ciclo
Ou isto ou aquilo
Ou se tem
chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem fica no chão não fica no chão.
Quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guarda dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e não guarda o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolha o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Cecília Meireles
3.º ciclo
Queres viajar, Maria Flor?
Viajar é correr mundo,
voar mais alto que os pássaros
ou pisar o chão da Terra
ou as ondas do Mar Alto…
É ver bichos
de muitas cores e feitios,
montanhas,
rios,
e ribeiros
e pessoas
e lugares…
Conhecer e descobrir,
inventar e duvidar,
sabendo cada vez mais,
sem nunca pensar que basta
o mundo que se conhece.
E alargá-lo com amor
dentro de nós e dos outros.
Alves Redol, "Uma Flor Chamada Maria"
Secundário
Todas as cartas de amor são ridículas
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu
tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
Todas as cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca
escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quisera que no tempo em que escrevi
Sem dar por isso
Cartas de amor que eram
Ridículas.
A verdade é que hoje
São as minhas recordações
Das cartas de amor
Que são
Ridículas.
(Todas as palavras proparoxítonas,
Como os sentimentos proparoxítonos,
São naturalmente
Ridículas.)
Fernando Pessoa
(visite a nossa biblioteca digital em https://bibliotecadigitalaesc.webnode.pt/)


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