Diga Bom Dia com Poesia! - segunda-feira, 16 de março


Um poema por dia nem sabe o bem que lhe fazia!...


 Pré-escolar 

1.º ciclo

O Menino Azul

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparece.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem tiver de um burrinho esses,
pode escrever
para as Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)

                                                Cecília Meireles


2.º ciclo

Ser Poeta

 

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

 

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

 

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...

É condensar o mundo num só grito!

 

E é amar-te, assim, perdidamente...

É seres alma, e sangue, e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda a gente!

 

                                   Florbela Espanca


3.º ciclo

Eu quero morrer no mar

 

Olha os meus olhos morena

porque a aventura é ficar

se a minha terra é pequena

eu quero morrer no mar.

 

Lençóis de algas e peixes

de barcos a menear

no dia em que tu me deixes

eu quero morrer no mar.

 

E se o negro é tua cor

respirando devagar

depois de amor meu amor

eu quero morrer no mar.

 

António Lobo Antunes




Secundário

Abril de abril

 

Era um abril de amigo Abril de trigo.

Abril de trevo e trégua e vinho e húmus

Abril de novos ritmos novos rumos.

 

Era um abril comigo abril contigo

Ainda só ardor e sem ardil

Abril sem adjetivo abril de abril.

 

 Era um abril na praça abril de massas

 Era um abril na rua abril a rodos

 Abril de sol que nasce para todos.

 Abril de vinho e sonho em nossas taças

 Era um abril de clava abril em ato

 Em mil novecentos e setenta e quatro.

 

 Era um abril viril tão bravo

 Abril de boca a abrir-se abril palavra

 Esse abril em que abril se libertava.

 

 Era um abril de clava abril de cravo

 Abril de mão na mão e sem fantasmas

 Esse abril em que abril floriu nas armas.

 

 Manuel Alegre in “ País de Abril”


(visite a nossa biblioteca digital em https://bibliotecadigitalaesc.webnode.pt/)


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