Pré-escolar
O Menino Azul
O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparece.
O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
(Quem tiver de um burrinho esses,
pode escrever
para as Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)
Cecília Meireles
2.º ciclo
Ser Poeta
Ser poeta é ser mais alto, é ser
maior
Do que os homens! Morder como quem
beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que
flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de
cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em
mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela
Espanca
3.º ciclo
Eu quero morrer no mar
Olha
os meus olhos morena
porque
a aventura é ficar
se
a minha terra é pequena
eu
quero morrer no mar.
Lençóis
de algas e peixes
de
barcos a menear
no
dia em que tu me deixes
eu
quero morrer no mar.
E
se o negro é tua cor
respirando
devagar
depois
de amor meu amor
eu
quero morrer no mar.
António Lobo Antunes
Secundário
Abril de abril
Era um abril de
amigo Abril de trigo.
Abril de trevo
e trégua e vinho e húmus
Abril de novos
ritmos novos rumos.
Era um abril
comigo abril contigo
Ainda só ardor
e sem ardil
Abril sem
adjetivo abril de abril.
Era um abril na praça abril de massas
Era um abril na rua abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
Era um abril de clava abril em ato
Em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um abril viril tão bravo
Abril de boca a abrir-se abril palavra
Esse abril em que abril se libertava.
Era um abril de clava abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
Esse abril em que abril floriu nas armas.
Manuel Alegre in “ País de Abril”

Sem comentários:
Enviar um comentário