Joaninha
A
joaninha bonita
Que mora a meio do caminho
Da rua das violetas
Tem um vestido de chita
Todo ele encarnadinho
E cheio de bolinhas pretas.
E
quando a gente lhe diz:
‹‹Joaninha voa, voa,
Não me digas que tens medo,
Se voas serás feliz
Que o teu pai está em Lisboa
Foi lá comprar um brinquedo…››
A
joaninha responde:
‹‹Se és amigo verdadeiro
Não me digas voa, voa,
– voar sim, mas para onde? –
o meu pai não tem dinheiro
para ter ido a Lisboa…››
E
a joaninha bonita
Lá se fica no caminho
Da rua das violetas
Com um vestido de chita
Todo ele encarnadinho
E cheio de bolinhas pretas…
Sidónio
Muralha
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia
de Mello Breyner Andersen
XXI
Se
eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se
a terra fosse uma cousa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem
tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
O
que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...
Alberto Caeiro, Poesia, “O guardador de rebanhos”
Eu
Eu sou a que no mundo anda
perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...
Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca,
in "Livro de Mágoas"
(visite a nossa biblioteca digital em https://bibliotecadigitalaesc.webnode.pt/)


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